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07/08/2016

EUA aprovam 'Aedes transgênico'; teste comprova ausência de impacto

Ensaio afirmou que 'Aedes do Bem' não causa prejuízos ao meio ambiente. 
Mosquito geneticamente modificado foi solto em regiões de Piracicaba (SP).



Uma avaliação do Centro de Medicina Veterinária da Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos (FDA-CVM, na sigla em inglês) apontou que o mosquito geneticamente modificado do Aedes Aegypti não causa impactos negativos à saúde ou ao meio ambiente, após um teste realizado em Flórida Keys. O "Aedes do Bem" foi solto na região central de Piracicaba (SP) e reduziu 91% dos casos de dengue no bairro Cecap/Eldorado.
O experimento com mosquitos transgênicos para combater a população do Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus da zika, da dengue e da chikungunya foi liberado nos Estados Unidos. O resultado final da avaliação ambiental sobre o uso do mosquito transgênico, que atua como forma de combate ao inseto selvagem, foi publicado na última sexta-feira (5).
Um relatório preliminar do ensaio foi liberado em março e o teste passou por comentários públicos para ser finalizado.
A decisão do órgão regulatório norte-americano concluiu que o uso do mosquito geneticamente modificado, criado pela empresa Oxitec, não acarretará impactos para a sociedade e natureza.
Segundo a empresa contratada pela Prefeitura de Piracicaba para realização do projeto na cidade, o objetivo do ensaio é demonstrar a eficácia do "Aedes do Bem" no controle da população selvagem do Aedes Aegypti em Key Haven, no condado de Monroe, Flórida.
“A confirmação da segurança ambiental do Aedes do Bem nos Estados Unidos, associada aos resultados obtidos pelo projeto em Piracicaba, é algo que deve ser levado em consideração pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que precisa agilizar a liberação comercial da tecnologia no Brasil, onde já existe aval da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)”, disse Gabriel Ferrato, prefeito de Piracicaba.
Redução de 91% nos casos
O bairro Cecap/Eldorado, que recebeu os mosquitos geneticamente modificados, teve uma redução de 91% no número de casos de dengue em um ano, segundo dados divulgados pela Prefeitura e a Oxitec.
A quantidade de pessoas infectadas no bairro Cecap/Eldorado, que tem cerca de 5 mil habitantes, foi de 133 casos entre julho de 2014 e o mesmo mês do ano passado, antes da liberação do chamado "Aedes do Bem".
Já de julho de 2015 até agora foram registradas 12 pessoas com dengue na região.
Ampliação do projeto
Os mosquitos transgênicos começaram a ser soltos na região central de Piracicaba no dia 29 de julho. O bairro São Judas, que conta com 3,6 mil moradores, foi o primeiro a receber 150 mil Aedes do Bem. Somente nesta área, são 700 mil mosquitos por semana.
A ação vai custar R$ 3,7 milhões à administração municipal. No total, a ação visa proteger uma população de 60 mil pessoas e atingir uma área equivalente a 1.754 campos de futebol, de acordo com a Prefeitura.
Os outros bairros que receberão os mosquitos modificados são: Centro, Cidade Alta, Cidade Jardim, Clube de Campo, Jardim Monumento, Nova Piracicaba, Nhô Quim, Parque da Rua do Porto, São Dimas e Vila Rezende.

Fonte: G1
Foto: Eduardo Carvalho/G1

29/03/2016

Unicamp lança Biblioteca Digital Zika


O Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) está lançando a “Biblioteca Digital Zika” (BDZ), plataforma aberta que disponibiliza publicações do mundo todo relacionadas às doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypt. O foco principal, que originou o desenvolvimento da plataforma, é o zika vírus. Mas também estão lá informações sobre os estudos da chikungunya e da dengue. A biblioteca digital foi criada, a princípio, com o objetivo de atender aos pesquisadores da Rede Zika Unicamp, uma ideia inicial da Pró-reitoria de Pesquisa (PRP). O desenvolvimento teve a participação das bibliotecas do Instituto de Química (IQ), Instituto de Biologia (IB) e da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).
Já são 200 artigos disponíveis sobre o tema na BDZ. O conteúdo, segundo a coordenadora da SBU Regiane Alcântara Bracchi, foi estruturado de acordo com os grupos de trabalho da Rede Zika Unicamp: caracterização molecular e biológica, mecanismos de imunopatogenicidade, novas metodologias de diagnóstico, estratégias de bloqueio da transmissão e controle do mosquito e epidemiologia, imunologia e repercussões clínicas. Os coordenadores de cada grupo validaram palavras-chave para a busca por publicações. A pró-reitora de Pesquisa, professora Gláucia Maria Pastore, disse que a importância da BDZ é enorme, "pois permite que as pessoas possam acessar as mais recentes publicações sobre o tema e assuntos tangentes a ele". Ela acrescenta que "de forma muito rápida, os pesquisadores têm acesso a uma série de informações, sem que eles necessitem buscar de forma individual e todos que compõem a rede Zika podem ter disponíveis informações de todos os aspectos deste grande e complexo estudo".
“O diferencial dessa biblioteca digital é que ela reúne todas as publicações em uma única plataforma, então o pesquisador não vai precisar entrar em todas as bases de dados para pesquisar sobre o tema”, afirma o diretor de gestão de recursos da SBU Márcio Souza Martins. A busca por palavras-chave validadas por pesquisadores da área também torna a biblioteca bastante específica e técnica. Márcio, Regiane, a diretora da tecnologia da informação Daniela Feijó Simões, o diretor de tratamento da informação Oscar Eliel e a bibliotecária Michele Lebre de Marco compõem a equipe que desenvolveu em tempo recorde de duas semanas a Biblioteca Digital Zika.
Leia mais em Unicamp.
Acesse o site da Biblioteca Digital Zika.

21/02/2016

Como satélites e aviões podem ajudar no controle da zika


A propagação explosiva da zika nas Américas está levantando questões sobre quais são as melhores maneiras de controlar essa e futuras epidemias. Primeiramente, nós precisamos identificar quais são os fatores que contribuem para a disseminação da zika e entender onde e quando eles acontecem. Com esse conhecimento, nós podemos efetivamente direcionar nossos recursos para lutar contra a doença e controlar sua propagação.

O zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. A habilidade de sobrevivência desse mosquito e seu potencial para transmitir vírus são altas, dependendo das condições ambientais, especialmente do clima e das práticas culturais locais.

Variáveis como temperatura, precipitação, vegetação, cobertura terrestre e uso do solo afetam o número de mosquitos presentes e sua habilidade de transmitir vírus. Hoje, essas variáveis podem ser calculadas por sensores remotos em satélites, aviões e veículos aéreos não tripulados. Assim, nós podemos estimar a probabilidade da presença do mosquito e da transmissão da doença.

Minha equipe de pesquisa anterior utilizou dados colhidos por satélites e aviões para identificar a quantidade de mosquitos do tipo Aedes aegypti na região central do México em 2011. Minha equipe de pesquisa atual está trabalhando para identificar as áreas de riscos da dengue na Colômbia. Essas mesmas técnicas podem ser usadas para prever onde a zika pode se espalhar.

Monitorando condições ambientes de longe

Dados capturados via satélite e a partir de métodos aéreos – técnica que na comunidade científica é chamada de detecção remota – são menos precisos em comparação com os dados coletados no solo, que são geralmente reunidos por pessoas que tomam medidas do local e utilizam dispositivos automáticos de monitorização. Porém, em vários locais, a prática não é viável ou há poucos recursos para gerar dados úteis. Isso torna o sensoriamento de dados a melhor ou a única opção disponível e também permite que os cientistas cubram áreas geográficas grandes por longos períodos de tempo e por um custo muito baixo a partir da conveniência de seu escritório.

O monitoramento das condições ambientais, como a temperatura e a precipitação, que acolhem populações de mosquitos portadores de doenças é fundamental para prevenir ou diminuir surtos. A atual epidemia da zika já está espalhada pelas áreas tropicais das Américas, como Brasil e México.

A partir do monitoramento é possível identificar antecipadamente os locais onde os mosquitos podem prosperar. Flutuações nas precipitações e na temperatura são extremamente dependentes das temperaturas da superfície do mar sobre a área tropical leste do Oceano Pacífico, também conhecido como oscilação El Niño – condições meteorológicas que podem ser monitoradas por um satélite.

A literatura sugere que existe uma relação direta entre El Niño e o mosquito portador de doenças como a dengue. As temperaturas mais altas relacionadas a El Niño favorecem o mosquito portador do vírus, aumentando a sua sobrevivência, estendendo o tempo durante o qual o mosquito adulto pode transmitir o vírus – e, ao acelerar o ciclo de vida, eles podem transmitir os vírus antes.

O mesmo mosquito que transporta a dengue, o Aedes aegypti, também carrega a zika, bem como a febre amarela e o chikungunya. Em função das condições severas da corrente El Niño, o timing deste surto de zika não parece coincidência.

Reprodução do mosquito em áreas úmidas e secas

A relação entre El Niño e a zika parece estar menos direcionada ao exame inicial de tendências de precipitação nas áreas afetadas. Há precipitações acima da média em algumas áreas, como no Equador, mas precipitações abaixo da média em outras, como em minha cidade natal Cartagena, na Colômbia, onde o surto está atingindo níveis alarmantes.

Parece lógico suspeitar que precipitações mais elevadas iriam encher vários recipientes com água da chuva, proporcionando mais locais de reprodução de mosquitos. Porém, por que a zika está se espalhando em lugares com precipitações abaixo da média durante os eventos de El Niño?

Uma razão pode estar relacionada com os ambientes que esse mosquito prefere, que são tipicamente dentro e em torno de residências humanas e os locais com água limpa que eles fornecem, como vasos de flores, pneus e reservatórios de água.

Na verdade, em algumas áreas, as pessoas tendem mais a usar reservatórios de água durante períodos secos. Incapazes de depender da precipitação frequente ou do abastecimento de água municipal, elas armazenam chuvas, esporádicas ou não, para o uso doméstico. Isso torna os criadouros do mosquito mais abundantes, mesmo na ausência de chuva.

Em locais com precipitações frequentes, pode-se ter um risco menor de transmissão da doença, pois a chuva pode causar o transbordamento dos reservatórios de água antes de as pupas do mosquito se abrirem. Por outro lado, os períodos secos permitem tempo de retenção de água mais longos para que o ciclo de vida do mosquito seja concluído.

Tanques de abastecimento de água são mais comuns em áreas que carecem de um fornecimento constante do sistema de água corrente do município. Isso pode indicar um status socioeconômico baixo do bairro que, por sua vez, pode sinalizar outras características da comunidade, como a ausência de ar-condicionado (que significa temperaturas internas mais altas) e a presença de janelas abertas (que permitem maior acesso de mosquitos).

Essas características comunitárias podem ser deduzidas a partir do monitoramento da cobertura da terra e do seu uso com satélites e imagens aéreas. Os satélites também podem mostrar o quão urbanizada a paisagem é, o que sugere a probabilidade de criadouros do mosquito. Imagens de alta-resolução podem revelar a presença de locais que favorecem a reprodução, como tanques de água e pilhas de pneus abandonados.

Como os mosquitos se espalham nos países desenvolvidos

A falta de água corrente e a associação das características comunitárias são menos comuns em países desenvolvidos, como os Estados Unidos. No entanto, outras práticas em países desenvolvidos podem fornecer condições favoráveis para esses mosquitos prosperarem.

Por exemplo, túneis de vapor, que transportam vapor pela cidade para o aquecimento, e outros ambientes subterrâneos podem fornecer água constantemente estagnada em temperaturas favoráveis para vetores, mesmo durante o inverno nos estados mais ao norte. Na verdade, alguns casos desse tipo já foram relatados em Washington D.C., nos Estados Unidos.

Além disso, os verões são suficientemente longos nos estados do norte dos Estados Unidos para permitir a conclusão do ciclo de vida dos mosquitos. Teoricamente, se o vírus estiver presente, isso aumentaria a possibilidade de o mosquito adquirir o vírus localmente e o transmitir para um ser humano. Ademais, uma outra espécie de mosquito, o Aedes albopictus, pode transmitir dengue e, aparentemente, também pode sobreviver a invernos frios: ele foi detectado no condado de Marion, Indiana, em 1986, disse-me um biólogo de saúde pública do local. O Albopictus chegou nos Estados Unidos graças à globalização, em um carregamento de pneus do Sudeste Asiático.

A possibilidade de ter vírus como a dengue ou a zika em mosquitos locais dos estados do norte, como em Indiana, é ainda muito pequena, mas ela está crescendo. O aumento de viagens em todo o mundo é um fator importante para a transmissão das doenças. A zika tem sido relatada na literatura desde os anos de 1950 na África. Com o aumento das viagens, o vírus chegou às Américas – num momento em que El Niño está fornecendo condições favoráveis para a sua propagação. O que também contribui é a crescente urbanização, que oferece condições de cobertura de solo ideais para o Aedes aegypti prosperar e espalhar o vírus.

O recente surto da zika pode ser um prenúncio do que está para vir. Dados da Administração Atmosférica e Oceânica Nacional que remontam a 1950 mostram uma tendência de aumento da força dos eventos de El Niño.

Cientistas também sugerem que o crescimento na frequência de oscilação de El Niño está relacionado com as mudanças climáticas. Tudo isso indica uma necessidade crucial de monitorar de forma rentável as condições ambientais que levam aos surtos de doenças e identificar habitats adequados onde os mosquitos podem procriar. Os sensores estrategicamente localizados no espaço tornam este monitoramento mais possível e mais eficiente.

Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation. Ele foi escrito por Max Jacobo Moreno-Madriñán, professor assistente de ciências da saúde da Universidade de Indiana.

Fonte: EXAME

18/02/2016

FAPESP e Medical Research Council lançam iniciativa para apoiar pesquisas sobre Zika


A FAPESP e o Medical Research Council (MRC), do Reino Unido, anunciam o lançamento de uma iniciativa de resposta rápida para financiar pesquisas sobre o vírus Zika.

Em maio de 2015, o primeiro caso de doença causada pelo vírus nas Américas foi identificado no Brasil. Desde então, o problema tem se espalhado rapidamente, com casos já registrados em outros 23 países e territórios no continente americano.

FAPESP e MRC consideram crítico que evidências robustas dos riscos associados com a transmissão e infecção por vírus Zika sejam obtidas o mais rapidamente possível, de modo a garantir o estabelecimento de medidas adequadas para poder prevenir e lidar com o problema.

Para apoiar o levantamento de evidências, o MRC lançou uma iniciativa no valor de £ 1 milhão – no âmbito do recém-anunciado Global Challenges Research Fund – para pesquisadores capazes de conduzir estudos sobre o vírus Zika e sua epidemia.

A FAPESP oferecerá apoio por meio de Auxílios Regulares buscando propostas em que haja equivalência em esforço de pesquisa, não necessariamente em financiamento. O financiamento oferecido pela FAPESP aos pesquisadores no Estado de São Paulo, que atuarão em parceria com pesquisadores britânicos, se dará por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

A chamada de propostas lançada pela FAPESP e MRC visa selecionar e apoiar projetos de curto prazo (de 12 a 18 meses) que forneçam abordagens novas, críticas e oportunas sobre a natureza do risco promovido pelo vírus Zika ou que levem a caminhos potenciais para prevenção e tratamento.

A submissão de propostas deve ser feita até 22 de fevereiro de 2016. 

A chamada está publicada em: www.fapesp.br/10040

Fonte: FAPESP

15/02/2016

Anvisa registra teste para detecção do zika em 20 minutos


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu hoje (15) registro de um teste rápido para detecção do vírus Zika. O produto, do laboratório canadense Biocan Diagnostics, é capaz de detectar se o paciente está ou esteve infectado pelo Zika em até 20 minutos.

Atualmente o exame mais comum no Brasil para diagnosticar o Zika é o PCR, que só detecta o vírus na fase aguda da doença.

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Este teste rápido é o quarto produto aprovado pela Anvisa para o diagnóstico do Zika e o terceiro capaz de identificar se o paciente teve a doença mesmo após a eliminação do vírus, pois faz a detecção pela presença de anticorpos.

A necessidade de ter mais exames disponíveis para a detecção do Zika aumentou depois que o Ministério da Saúde confirmou que quando gestantes são infectadas pelo vírus podem vir a ter bebês com microcefalia, uma malformação no cérebro.

Enquanto em 2014, quando o vírus ainda não circulava fortemente no país, foram registrados 147 casos da malformação, entre outubro de 2015 e o começo de fevereiro de 2016 foram confirmados mais de  460 casos, sendo que 41 têm relação confirmada com o vírus Zika.

Mais 3.852 registros de suspeita de microcefalia estão em investigação.

Fonte: Agência Brasil

02/02/2016

Vacina contra a dengue pode ser adaptada para o Zika, afirma diretor do Butantan


A tecnologia desenvolvida na formulação da vacina brasileira contra a dengue – que contou com apoio da FAPESP e já entrou na fase final de ensaio clínico – pode ser adaptada para criar um imunizante contra o vírus Zika, afirmou o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil, em entrevista concedida à Agência FAPESP.

Segundo ele, uma das possibilidades seria inserir no vírus vacinal da dengue um gene codificador de uma proteína-chave do vírus Zika. Outra ideia seria criar um vírus Zika atenuado, usando método semelhante ao empregado no desenvolvimento da vacina da dengue.

O Instituto Butantan, que integra a recém-criada Rede Zika (força-tarefa apoiada pela FAPESP e formada por cerca de 40 laboratórios), também já deu início a pesquisas voltadas ao desenvolvimento de um soro que poderia ser aplicado em gestantes infectadas para combater o vírus Zika circulante no organismo antes que ele cause danos ao feto.

Ainda durante a entrevista, Kalil falou sobre os preparativos necessários para o início da imunização dos voluntários participantes da terceira etapa de ensaios clínicos da vacina tetravalente contra a dengue, prevista para começar este mês.

“Estamos vivendo uma crise aguda de Zika, mas não podemos minimizar a dengue. É uma doença que persiste, ainda mata no país e deve vir com muita força este ano”, avaliou. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Agência FAPESP – No último mês de dezembro, a Anvisa autorizou o início da terceira fase de ensaios clínicos da vacina contra a dengue. O que foi feito desde então? 
Jorge Kalil – Desde que recebemos o aval da Anvisa, em 11 de dezembro de 2015, demos início às tratativas finais necessárias antes da imunização dos voluntários, que deve começar este mês. Precisamo, por exemplo, fazer novas preparações vacinais, pois as amostras que tínhamos prontas estavam perto do término da validade. Já preparamos um lote do imunizante de acordo com as novas normas deliberadas pela Anvisa para a produção de amostras usadas em ensaios clínicos. Para isso foram necessárias algumas alterações na área de produção. Também contratamos um seguro para todos os participantes e uma empresa do tipo CRO (do inglês, Clinical Research Organization) de atuação internacional para fazer o gerenciamento do estudo.

Agência FAPESP – Qual será o papel dessa empresa? 
Kalil – Os ensaios clínicos são, de maneira geral, muito complexos e envolvem muitas pessoas. Essas CROs auxiliam no treinamento das pessoas dos centros participantes, acompanham o processo para garantir que os pesquisadores atuem de acordo com o procedimento descrito e avaliam a qualidade dos dados recolhidos. Isso não pode ser feito pelo próprio Instituto Butantan, que é parte interessada e funciona como um patrocinador da pesquisa. E, como desejamos obter um registro internacional da vacina, contratamos uma CRO de atuação internacional. Os 14 centros participantes terão um pesquisador principal, sem nenhuma relação com o Instituto Butantan.

Agência FAPESP – Quando exatamente terá início a imunização dos voluntários e como será o processo? 
Kalil – A data exata será anunciada pelo governador Geraldo Alckmin em breve. As primeiras imunizações serão feitas em São Paulo, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e, depois, nos outros 13 centros. Serão vacinados 17 mil voluntários, que serão acompanhados por até cinco anos. Mas antes disso, possivelmente dentro de um ano, já devemos ter a resposta principal: se a vacina protege ou não contra a dengue. Esse tempo vai depender da incidência da doença nos diferentes locais onde será feito o estudo nos próximos meses e também de nossa capacidade de imunização dos voluntários.

Agência FAPESP – A disseminação do vírus Zika pelo país pode atrapalhar de alguma forma o ensaio clínico? 
Kalil – Nossa principal preocupação deverá ser capacitar os centros para fazer o diagnóstico com precisão, distinguindo os casos de Zika e dengue. Fora isso, não vejo problema.

Agência FAPESP – Pode haver interação do vírus da dengue atenuado usado na vacina com o vírus Zika que circula pelo país? 
Kalil – Ainda não há dados sobre isso, mas é um fator que sem dúvida vamos observar durante a pesquisa.

Agência FAPESP – É possível adaptar a vacina desenvolvida contra a dengue para que ela imunize contra o vírus Zika ? 
Kalil – Uma das ideias é utilizar o mesmo arcabouço viral da vacina contra a dengue, que é o próprio vírus da dengue atenuado, e inserir o gene que codifica uma proteína do envelope viral do Zika (bicamada lipídica que fica na parte mais externa do vírus). Já se sabe que os anticorpos que protegem contra essas doenças virais – os chamados anticorpos neutralizantes – são dirigidos contra proteínas do envelope viral. Outra possibilidade seria criar uma vacina usando o próprio vírus Zika atenuado por um método parecido com o empregado para criar a vacina contra a dengue. Vamos testar diferentes possibilidades.

Agência FAPESP – Nesse caso, os testes com a nova vacina teriam de começar desde a fase pré-clínica ou poderiam andar mais rápido? 
Kalil – Tem de começar tudo de novo, mas talvez o processo ande um pouco mais rápido, pois seria muito semelhante ao que foi feito e já mostramos que o método é seguro. Diante da pressa, teríamos de conversar com as autoridades sanitárias.

Agência FAPESP – O Butantan também trabalha em um soro contra o vírus Zika? 
Kalil – Sim. Já estamos cultivando o vírus em células in vitro. A ideia é isolar antígenos específicos para imunizar cavalos. Então temos de observar se o animal produz quantidades significativas de anticorpos neutralizantes, isolar e purificar essas imunoglobulinas em nossa fábrica – algo semelhante ao que fazemos para produzir soros contra toxinas e venenos. Depois é necessário obter fragmentos dessa imunoglobulina de cavalos que funcionem como anticorpos neutralizantes e possam ser injetados na mulher para combater o vírus. Já começamos a imunizar camundongos e já estamos desenvolvendo testes para avaliar se o anticorpo produzido é do tipo neutralizante. As primeiras etapas estão em andamento.

Agência FAPESP – O avanço dos casos de microcefalia possivelmente ligados ao vírus Zika foi considerado uma emergência internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso deve contribuir para acelerar o andamento dessas pesquisas? 
Kalil – Sem dúvida. Isso chama maior atenção para o tema, promove maior colaboração entre os cientistas e, sobretudo, maior alocação de recursos para as pesquisas. O caso do ebola é um exemplo. Por ter sido considerado uma emergência, as pesquisas avançaram no sistema fast track, que permite avaliar e aprovar os resultados com maior rapidez. Isso também depende das agências reguladoras locais, que deverão acompanhar a decisão da OMS. 

Por Karina Toledo  |  Agência FAPESP
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