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30/08/2016

Estudo investiga as consequências da falta de atividade física


Em 1982, o Dr Walter Bortz II, professor universitário de medicina escreveu: “Não há, nem haverá, nenhum remédio que garanta boa saúde tanto quanto um programa vitalício de exercícios físicos.” O conselho do Dr. Bortz não é só atual, mas serve de ponto de partida para pesquisa da  Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect) “O estilo de vida de jovens e o risco de doenças relacionadas ao comportamento pouco ativo”.

Liderada por dois pesquisadores do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), Alan Rodrigo Antunes e Carlos Eduardo Maia de Oliveira, a pesquisa procura alertar os jovens sobre as consequências da pouca atividade física para saúde.

Os pesquisadores explicam que existe um entendimento geral que a obesidade vem aumentando e a atividade física diária diminuindo em crianças e adolescentes de forma significativa. Esse problema determina várias complicações tanto na própria infância e adolescência quanto na idade adulta. Porém, com a identificação e análise do estilo de vida será possível realizar um trabalho de informação e conscientização sobre a importância de cultivarmos uma vida ativa e saudável.

“Os benefícios vão além da melhora da qualidade de vida dos estudantes, pois pessoas mais saudáveis ficam menos doentes e reduzem os gastos com hospitais e médicos. Dessa forma, buscamos um trabalho avaliativo e preventivo que proporcione mudanças no hábito de vida o quanto antes possível, já que quanto mais tempo o indivíduo se mantém pouco ativo e obeso maior a chance das complicações ocorrerem, assim como mais precocemente”, explica Alan.

A pesquisa está sendo executada em quatro escolas de ensino médio da cidade de Três Lagoas, sendo uma escola federal, duas escolas estaduais (centro e bairro) e uma escola particular. Um questionário sobre estilo de vida e atividade física diária, é aplicado aos estudantes, aqueles que apresentarem resultados considerados prejudiciais a saúde, terão avaliados a composição corporal (por meio do método da dobra cutânea) e o condicionamento físico.

Alan ressaltou “A aplicação deste instrumento permite a identificação de aspectos positivos e negativos no estilo de vida dos estudantes, levando-os a refletirem sobre a necessidade de mudança de hábitos de vida”.

Com o levantamento da realidade dos jovens, a pesquisa espera contribuir para uma valorização da atividade física habitual, uma vez que a atividade física, mesmo que espontânea, contribuí para aumentar a massa óssea e prevenir a osteoporose e a obesidade.

Fonte: João Costa Jr. – Ascom FUNDECT
Foto: Arquivo Fundect/Web

Óleo de peixe previne prejuízos de dieta rica em gordura, indica estudo


Karina Toledo | Agência FAPESP – A suplementação com óleo de peixe – rico em ácidos graxos da família ômega 3 – pode ajudar a prevenir problemas de saúde induzidos por uma dieta rica em gordura, entre eles diabetes e dislipidemia.
A conclusão é de um estudo feito com camundongos na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados no The Journal of Physiology.
“Importante ressaltar que nosso modelo foi de prevenção, pois iniciamos a suplementação quando os animais estavam sadios. Atualmente, estamos investigando o efeito do óleo de peixe em animais já obesos e os resultados parecem ser diferentes”, contou Maria Isabel Cardoso Alonso-Vale, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp.
Os experimentos foram conduzidos durante o mestrado e o doutorado de Roberta Dourado Cavalcante da Cunha de Sá, sob orientação de Alonso-Vale.
Os animais foram suplementados com óleo de peixe ao longo de 12 semanas. A partir da quarta, passaram a receber uma dieta considerada hiperlipídica: com 59% de gordura, contra 9% da dieta ingerida pelo grupo-controle.
“Os animais recebiam dois gramas de óleo de peixe por quilo corporal, três vezes por semana. Cada grama do óleo usado no estudo tem 540 miligramas de EPA (ácido eicosapentaenoico) e 100 miligramas de DHA (ácido docosahexaenoico). A proporção desses ácidos graxos poli-insaturados deve ser considerada para a obtenção do resultado”, comentou Alonso-Vale.
De acordo com dados da literatura científica, o EPA tem ação anti-inflamatória no organismo, induzindo a produção de substâncias conhecidas como prostaglandinas E3. Já o DHA é conhecido por sua ação antioxidante.
Leia mais em Agência FAPESP.

29/08/2016

Instituições de pesquisa desenvolvem projeto inovador de prótese ortopédica



Por Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo, em parceria com outras instituições, está desenvolvendo um projeto para a criação de próteses ortopédicas diferenciadas, com características mais parecidas com ossos humanos. Os materiais utilizados na prótese serão ligas de Nb-Ti (nióbio-titânio) e Ti-Nb-Zr (titânio-nióbio-zircônio), que serão confeccionadas sob medida, de acordo com cada paciente, por meio da manufatura aditiva, que é uma impressão 3D.

A produção das próteses será feita por um dos processos da chamada manufatura aditiva, a fusão seletiva a laser, em que diversos materiais podem ser aplicados camada por camada, na ordem de micrômetros, para a fabricação de uma peça, sem a existência de um molde ou ferramenta. O processo funcionaria como uma impressão 3D, em que o desenho da prótese viria a partir de um computador.

Com o método, pode-se trabalhar com diversas combinações de materiais, de acordo com a funcionalidade desejada do componente, o que acontecerá no projeto do IPT para as ligas metálicas. Os pesquisadores buscarão uma combinação que mais se aproxime das características do osso.

O projeto, que terá investimento de R$ 7,8 milhões e duração de 42 meses, surgiu da necessidade de adequação das próteses ao perfil de cada paciente, porque as próteses disponíveis hoje acabam por demandar uma série de pequenos ajustes da peça pela equipe que realiza a cirurgia. As próteses geralmente são fabricadas por meio de processos como usinagem, fundição e forjamento, nos quais há uso de máquinas para moldar uma peça bruta ou o uso de moldes que acabam submetendo as peças a um determinado padrão.

“As próteses hoje são construídas por um processo convencional que é por usinagem, ou seja, você pega uma peça bruta, vai usinando, tirando material dela até chegar no formato que você quer. Então, o cirurgião, quando vai fazer um procedimento, ele tem uma maleta com parafusos e outras peças para colocar no paciente e nem sempre essas peças se encaixam perfeitamente na pessoa, então têm de ser feitos ajustes às vezes na hora da cirurgia”, explicou o pesquisador e um dos coordenadores do projeto, João Batista Ferreira Neto.

Segundo ele, a premissa da manufatura aditiva é, a partir de exames como tomografia ou ressonância magnética de um paciente, criar um desenho tridimensional da peça que será “impressa” exatamente nas dimensões requeridas para se encaixar no corpo humano, sem a necessidade de fazer qualquer alteração, ou seja, feita sob medida. “Essa é a grande vantagem”, disse Ferreira Neto.

Inovação na produção com nióbio

Os pós e as ligas, a partir do nióbio, para produção de próteses não são produzidos atualmente no Brasil. Ferreira Neto informou que já existe um pó comercial da liga titânio-nióbio-zircônio, mas não é fabricado no país. Já a liga titânio-nióbio ainda não existe no mercado. “O objetivo é que a gente consiga criar, nuclear uma indústria capaz de produzir essas ligas para o mercado interno, para atender à demanda de próteses aqui no país”. A ideia é que o IPT desenvolva a tecnologia e a transfira para uma empresa que produzirá esses materiais.

Segundo o pesquisador, a liga clássica utilizada para próteses é a titânio-alumínio-vanádio, mas existem alguns estudos dizendo que alumínio e vanádio podem ser prejudiciais à saúde do paciente com o passar do tempo. Ele afirmou que as ligas titânio-nióbio-zircônio são mais biocompatíveis e têm resistência mecânica mais próxima do osso.

Já a manufatura aditiva permite que se produza uma peça com porosidade próxima da porosidade do osso. “Combinamos duas coisas: um material mais biocompatível, que é o nióbio com o titânio, e a manufatura aditiva permite obter essa peça com características mais próximas da resistência mecânica, mais próxima de um osso humano”.

Fases do projeto

A produção dos materiais, ou seja, as ligas e os pós que compõem as ligas que serão usados para a construção das próteses, será o foco do trabalho da equipe do IPT. A confecção das próteses, que serão de quadril (no caso do projeto, as placas angulares de fêmur), será feita no Instituto em Sistemas de Manufatura e Laser do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Joinville, Santa Catarina.

O corpo clínico da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), uma das parceiras do projeto, vai cuidar da orientação do uso médico da prótese, além dos ensaios clínicos experimentais para a sua validação, que têm prazo de dois anos para testes, após a entrega das peças.

Outra parceira no projeto é a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), que produz nióbio no país. “[A parceria] ajuda bastante. Se a gente for definir uma empresa brasileira para produzir esses pós e as ligas, a vantagem é que já existe uma empresa no Brasil que produz a maior parte do nióbio do mundo”, afirmou.

O pesquisador destaca outro diferencial do projeto que é, além de usar manufatura aditiva, combinar duas empresas – uma usuária, que seria a AACD, e outra no começo da cadeia da produção do metal, que é a CDMM.

26/08/2016

Canal de vídeos apresenta noções da psicologia anomalística


O Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais (Inter-Psi) do Instituto de Psicologia (IP) da USP lançou um canal no Youtube com explicações sobre temas trabalhados pelo grupo.
O canal fará a transmissão do Quartas Inter-Psi USP, conferências semanais ao vivo com pesquisadores e membros do laboratório que introduzem os conceitos fundamentais e estudos de temas como aspectos cognitivos, experiências fora do corpo e experiências anômalas.
Segundo um dos líderes do Inter-Psi, o professor Wellington Zangari, a ideia de criação do canal “nasceu, por um lado, da grande demanda por parte de interessados pelos temas que tratamos, mas que não têm acesso aos cursos regulares da USP, e, por outro, do interesse dos membros do laboratório em fazer divulgação científica, devolvendo à sociedade, que subsidia nossas atividades por meio dos impostos, material científico de qualidade”.
Os vídeos ficam disponíveis no canal após a transmissão, que acontece às quartas-feiras, das 20 às 21 horas. As 12 conferências que acontecerão ao longo do semestre são seguidas de 20 minutos de debate com outros membros do laboratório.
Assista ao vídeo de apresentação do laboratório:
Fonte: Jornal da USP

22/08/2016

Biólogos acham espécies raras de plantas 'primas' do ipê e da carqueja

Pesquisadores do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) descobriram duas novas espécies raras de plantas em Serranópolis, Mineiros, Jataí, e Chapadão do Céu, região sudoeste do estado. De acordo uma das coordenadoras do projeto, a bióloga Luzia Francisca de Souza, uma delas é da família do ipê e da catuaba e a outra é parente da carqueja.
Segundo a pesquisadora, ambas as espécies podem ter propriedades medicinais e até mesmo afrodisíacas. “As plantas da família dos ipês apresentam usos medicinais em determinadas comunidades. O ipê rosa tem compostos químicos que são usados para combater alguns tipos de câncer. A catuaba é reconhecidamente afrodisíaca. A outra planta é prima da carqueja, usada pra muita coisa. Velas vão ser estudadas para analisar qual o fim”, afirmou ao G1.
A primeira amostra da prima do ipê, nomeada Neojobertia alboaurantiaca, foi colhida em 2015, em Serranópolis, mas só recentemente foi identificada como uma espécie inédita. Trata-se de um tipo de trepadeira que gosta de locais secos e ensolarados.
Já a parente da carqueja, chamada pela ciência de Bacharis sp. novae, é uma erva que gosta de áreas úmidas, porém ensolaradas.
A descoberta foi feita durante um trabalho que tem por objetivo identificar as espécies de vegetação presentes nas regiões sudoeste e oeste do estado. A bióloga afirma que, ao recolher a amostra das duas plantas, não foi possível identificar a espécie. A partir daí começaram a desenvolver a pesquisa e análise das plantas.
De acordo com Luzia Francisca, o processo de identificação da espécie foi longo porque reuniu outras amostras de plantas recolhidas, por exemplo, no Jalapão.
“A gente recolheu a amostra de várias espécies, as que ficaram sem identificação nós encaminhamos para especialistas analisarem. Eles cruzaram todas as características genéticas do material e concluiu que tratava-se de tipos inéditos, com diferenças morfológicas em relação a outras plantas da família”, afirmou.
Além da identificação das duas espécies novas, o trabalho também identificou quatro plantas que nunca haviam sido encontradas em Goiás, chamadas pela ciência de Thismia panamensis, Bacopa scabra, Ocotea notata e Cereus bicolor. A primeira delas, segundo a pesquisadora, nunca havia sido vista no Brasil.

Ameaça
A pesquisadora alerta que as plantas, apesar de recém-descobertas, já podem ser consideradas ameaçadas de extinção. Para resguardar a existência delas, exemplares da vegetação foram depositados no Herbário Jataiense.
“De acordo com os critérios da UICN [União Internacional para a Conservação da Natureza], a Neojobertia já está na lista de espécies ameaçadas. A Bacharis ainda vai ser submetida à avaliação sobre os mesmos critérios e provavelmente estará também. Para se ter uma ideia eu consegui encontrar e colher apenas um exemplar durante todos estes anos de estudo”, revelou a pesquisadora.

Fonte: G1

Na luta contra o câncer, a esperança em cápsulas

Início dos testes clínicos em São Paulo traz alento para vítimas do câncer e familiares, que têm na liberação da fosfoetanolamina uma chance de sobreviver com menos dor e mais dignidade.
A época não era das melhores para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Com a imagem desgastada pelos efeitos da sua má gestão dos recursos hídricos e pelo desastrado projeto de fechar escolas para conter gastos, ele finalmente ouviu o clamor de doentes de câncer e de quem os têm na família. Pesou ainda a pressão dos deputados estaduais Roberto Massafera (PSDB) e Ricardo Madalena (PR), e do federal Lobbe Neto, também tucano, todos defensores da liberação da fosfoetanolamina sintética, a FOS.
Massafera é testemunha pública dos efeitos positivos das cápsulas que tomou. Em 23 de novembro, Alckmin recebeu no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual paulista, o químico Gilberto Orivaldo Chierice, que se aposentou como professor do Instituto de Química de São Carlos, vinculado à Universidade de São Paulo (USP), e outros pesquisadores, que explicaram os princípios da substância. Segundo relatos de doentes, muitos com atestado médico, houve redução das dores e do avanço da doença, e melhora da qualidade de vida. Quatro dias depois, em reunião com o então ministro da Saúde, Marcelo Castro (PMDB), o tucano pediu autorização do seu uso compassivo e anunciou a realização de testes clínicos no estado.
No último 25 de julho, após oito meses, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) passou a ministrar cápsulas da fosfoetanolamina produzida num laboratório em Cravinhos, município do interior, conforme formulação da equipe de Chierice. Nessa­ primeira fase, para atestar a segurança, estão incluídos dez pacientes. Se não houver reação tóxica, o estudo será ampliado para mais 200 pacientes com tumor de cabeça e pescoço, pulmão, mama, cólon e reto (intestino), colo uterino, próstata, melanoma, pâncreas, estômago e fígado. Se tudo der certo, o grupo crescerá progressivamente até alcançar mil pessoas.
"Não estamos apoiando charlatanismo nem empirismo. Há uma base científica já publicada. Fizemos a leitura de todos os estudos publicados em revistas científicas de prestígio antes de desenhar o projeto de pesquisa aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, o Conep", afirmou o imunologista David­ Uip, secretário estadual de Saúde de São Paulo, em entrevista coletiva, ao anunciar o início dos testes. "Não acreditamos em efeitos tóxicos. Observamos tudo o que foi feito, o laboratório que sintetizou, a dose utilizada em pelo menos 20 mil pacientes nesses anos todos. Nossa expectativa é de que os efeitos, que devem aparecer em quatro meses, sejam iguais aos observados nesses 20 mil pacientes. E enquanto tiverem melhora, por mais leve que seja, os pacientes serão mantidos no estudo."

Definição

Para o diretor-geral do Icesp, o oncologista Paulo Hoff, o estado tem a obrigação de esclarecer, de uma vez por todas, se o produto é mesmo eficaz na diminuição das dores, no controle do crescimento do tumor e revitalização dos pacientes. "Temos de levar em conta o interesse da população, o grande número de pessoas que fizeram uso e as tantas outras que entraram na Justiça para continuar o tratamento e dar uma resposta à sociedade." O governo estima em 18 mil as liminares contra a USP e o estado.
Com dividendos eleitorais e a chance de entrar para a história por ter desafiado a indústria farmacêutica por trás das temidas sessões de quimioterapia – um patamar acima do colega tucano José Serra, que se autointitula criador dos genéricos –, os testes têm, porém, significado muito mais nobre. É a renovação da esperança de um atalho para a liberação da FOS.
"Este é um momento precioso para a nossa luta. Precisamos dos testes clínicos porque seus resultados, muito aguardados, poderão influir na decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Dos quatro ministros que votaram a favor da liminar que proibiu a distribuição, três não foram tão firmes, demonstrando postura quase a favor da FOS. Os testes podem ainda vir a ser usados em processo para registro como medicamento na Anvisa", comemora a analista de sistemas Bernardete Cioffi, de São Paulo, coordenadora do Instituto Viva Fosfo, que defende o direito de escolha pela vida, saúde e dignidade.
Entre as ações, a entidade orienta e cadastra pacientes oncológicos para medidas jurídicas e negociações coletivas para obtenção de benefícios. Com diagnóstico de metástase óssea devido ao câncer de mama, Bernardete estava tão debilitada que só saía da cama em cadeira de rodas. Sua vida de dores intensas mudou em junho do ano passado, quando soube da prisão de um colaborador de Chierice, o catarinense Carlos Kennedy Witthoeft, de Pomerode, por fabricar fosfoetanolamina em casa.

Novas leis

Sua filha, médica, leu os 2.700 trabalhos publicados em sites científicos sobre a substância até então desconhecida pela família. "Se não curar, mal não vai fazer. Se houver algum efeito colateral, deixa de tomar", recorda Bernardete, sobre a recomendação da filha. Dias depois, entrava com pedido de liminar para obter cápsulas em São Carlos. "Tive de parar o uso várias vezes por causa de reveses na Justiça. Se eu não tivesse parado, poderia até estar curada", acredita ela, ressaltando estar satisfeita pelo câncer deixar de avançar e por ter restaurado sua condição física.
Como uma porta-voz dos usuários da FOS, Bernardete hoje percorre o país para audiências públicas e palestras. E promete continuar levando fatos novos aos ministros do Supremo, que em abril deu vitória apertada, por 6 a 4, à Associação Médica Brasileira (AMB), na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.501, contra a Lei 13.269/2016, sancionada por Dilma Rousseff em 13 de abril, que autoriza a distribuição da FOS para pacientes diagnosticados com tumor maligno.
Comemorada por pacientes e familiares de todas as classes sociais e até em outros países, a lei foi duramente criticada na mídia conservadora, costumeiramente aberta a entidades médicas, como a AMB – a mesma que capitaneou hostilidades contra os profissionais cubanos do programa Mais Médicos. Colunista do jornal Folha de S.Pauloe defensor dos transgênicos, o médico Drauzio ­Varella chamou de "ignorância populista" a decisão do Congresso de aprovar a liberação da substância "sem que nenhum estudo tenha sido submetido à apreciação da Anvisa".
Para a AMB, faltam testes em seres humanos que confirmem a eficácia e a segurança. "Não me sinto representada nem defendida pela entidade, que falta com a verdade ao dizer que a substância não foi avaliada. E não estou sendo atacada. Pelo contrário. Como paciente, estou tendo ampliado meu direito a alternativas de tratamento", rebate Bernardete.
A Defensoria Pública da União no Rio de Janeiro ingressou como amicus curiae ("amigo da corte", em latim, parte estranha à causa que oferece informações) para subsidiar os ministros. "Entre os nossos argumentos, o desinteresse da entidade médica em entrar com medida semelhante contra o cigarro e suas mais de 4.500 substâncias tóxicas que já mataram milhões de pessoas, e os agrotóxicos liberados pela Anvisa que são proibidos em muitos países", explica o defensor Daniel Macedo, que em 2015 começou a acompanhar o caso em busca de informações – que, segundo ele, não estavam sendo repassadas pela imprensa.

Testes

"Requisitei informações aos pesquisadores, à USP e à juíza Gabriela Müller Carioba Attanasio, da Vara de Fazenda Pública em São Carlos, que concedeu mais de 900 liminares favoráveis às pessoas que queriam obter a fosfoetanolamina. Esse fato é que me deixou mais estarrecido e me deu mais segurança. Com isso, fui pesquisar o currículo dos pesquisadores, analisar as pesquisas científicas com suporte de outros pesquisadores. É como a construção de um prédio, no qual fiz a fundação e construí os andares", diz.
O defensor trabalha agora numa ação civil pública contra irregularidades nas pesquisas conduzidas no âmbito de uma força-tarefa iniciada em outubro do ano passado, pelo então Ministério da ­Ciência, Tecnologia e Inovações, para realização de testes com objetivo de acelerar o processo de registro na Anvisa. Entre as falhas, o uso de cápsulas cuja formulação é diferente da de Chierice. "Está sendo estudada uma fosfoetanolamina sintética desenvolvida nos laboratórios da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) a partir do relatório de patente depositada pelos pesquisadores no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual). Só que por motivos de proteção da fórmula original, não são divulgados todos os detalhes", aponta Macedo.
"Quando você faz isso, significa má-fé. Quando você suborna dados, significa má-fé. E essa má-fé nós não podemos admitir como pessoa, nem como pesquisador", disse o químico Chierice durante reunião das Comissões de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática, Assuntos Sociais, Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, em 5 de abril. E avisou: "Para alegria de todos e para não preocupar muito os nossos centros de pesquisa, já começamos a fazer estudos clínicos talvez no México, Coreia e talvez no Canadá. Vai ser feito paralelamente porque não dá para confiar no que vai ser feito aqui no país".
A Defensoria questiona ainda o desvirtuamento do uso dos recursos federais. Dos R$ 10 milhões destinados à pesquisa em andamento em laboratórios ligados às universidades federais do Rio de Janeiro, Ceará e Santa Catarina, R$ 2 milhões já foram gastos. "Vamos pedir a desconstituição dessa equipe, a desconsideração dos resultados e trazer a ciência para o processo judicial. Mas da forma como está sendo conduzido, isso vai determinar resultados falso-positivos quando entrar na fase clínica. E nós não podemos admitir uma lesão ao erário", afirma Macedo.
Falhas como essas, segundo Bernardete, não devem se repetir na pesquisa paulista, que utiliza formulação original e que tem acompanhamento da equipe de São Carlos. No entanto, ela teme "sabotagem" em nível de administração do medicamento aos pacientes. "Vamos continuar vigilantes. Em dois meses, deveremos ter a resposta quanto à segurança", afirma, otimista.
Alternativa em meio a polêmicas



A “pílula do câncer” não cura a doença. É um coadjuvante que potencializa – e não substitui – a quimioterapia. Ou seja, ajuda a matar as células tumorais com doses menores desses fármacos, efeitos colaterais menos severos e melhora da qualidade de vida do paciente oncológico.


A fosfoetanolamina é conhecida desde o início do século passado. Encontrada primeiro na membrana celular de tumores, chegou a ser considerada causadora da doença. Por isso, um orientando de Gilberto Chierice queria inibir a ação dessa substância. Na pesquisa, observou a presença no leite materno. Por que um alimento produzido pelo próprio organismo concentraria um agente cancerígeno?

Como câncer é a multiplicação de células defeituosas e nos primeiros meses de vida é quando as células se multiplicam mais rapidamente, a substância poderia ter o papel de debelar e não de causar tumores. Uma proteção natural no leite, desconfiaram os pesquisadores. A fosfoetanolamina biológica, então isolada, mostrou ação seletiva contra as células tumorais em laboratório. Daí para estabelecerem doses foi um pulo, e as pesquisas começaram no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP), que já testava próteses fabricadas com óleo de mamona desenvolvidas por Chierice.

Como a obtenção da substância biológica era custosa é difícil, os bons resultados apontaram para a necessidade de a sintetizarem, assim como foi sintetizada a insulina, por exemplo. “Durante nove meses, 24 horas por dia, Chierice e o químico Otaviano Mendonça Ribeiro Filho se revezavam no laboratório do Instituto de Química de São Carlos. Foram milhares de testes até chegar a uma síntese com a mesma biodisponibilidade, sem toxicidade”, conta Bernardete Cioffi, coordenadora do Instituto Viva Fosfo.

Segundo ela, isso foi em 1995, quando surgiram oncologistas interessados e propostas milionárias. “Para proteger a fórmula, e não para lucrar, os pesquisadores patentearam e começaram a procurar órgãos ligados ao Ministério da Saúde, cujas reuniões foram documentadas. A Anvisa ainda não existia. Quando a pesquisa foi suspensa em Jaú, os pacientes que se beneficiavam iam buscar mais cápsulas.

Os médicos, vendo melhora na saúde, os encaminhavam para procurar o “professor” no laboratório de São Carlos. “Não tem como impedir que se espalhe a fama de algo que mostra resultado bom”, conta Bernardete. No entanto, o hospital não renovou o convênio de pesquisa e os registros e prontuários dessa pesquisa nunca foram encontrados. “Todo convênio de pesquisa tem a chancela do Ministério da Saúde, e o de Jaú chegou a ser publicado no Diário Oficial da União”, diz o defensor público da União no Rio de Janeiro Daniel Macedo. “No entanto, documentos e prontuários desapareceram, o hospital desconversa, nega ter havido testes ali, e o ministério não foi atrás.”

A aposentadoria de Chierice, em 2013, coincidiu com uma portaria da USP, meses depois, proibindo a distribuição de qualquer substância sem registro na Anvisa. Em junho de 2015, quando Carlos Kennedy Witthoeft foi preso em Santa Catarina,  havia uma avalanche de liminares no Fórum de São Carlos. O caso então explodiu na imprensa e nas redes sociais – e foi parar no Congresso Nacional.

Fonte: RBA
Imagem: Cecília Bastos Ribeiro - USP

21/08/2016

Nanopartículas reduzem os efeitos ruins da quimioterapia

Mais específicas, nanoesferas atacam células tumorais e ‘preservam’ as boas.


Queda de cabelo, ansiedade, náuseas, vômitos, anemia, fadiga e falta de apetite são alguns dos efeitos colaterais que a maioria dos pacientes de quimioterapia experimenta. Uma pesquisa brasileira que usa nanopartículas na administração da quimioterapia promete mudar completamente esse prognóstico.
Os efeitos colaterais acontecem porque os medicamentos contra o câncer não conseguem diferenciar a célula tumoral de uma partícula saudável. Assim, além de matar as células que causam a doença, elas matam células normais na mesma proporção.
Pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPem), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MTCI), localizado em Campinas, estão desenvolvendo uma tecnologia em que nanopartículas apliquem o medicamento diretamente sobre as células do câncer, poupando as células saudáveis.
“Para que se tenha uma ideia das dimensões, imagine que um fio de cabelo tem, em média, um diâmetro de 50 micrômetros (a milionésima parte de um metro). A nanopartícula é mil vezes menor que o diâmetro de um fio de cabelo. Por elas serem muito pequenas é que são eficientes”, conta o pesquisador Matheus Resende, do LNLS.
Ele explica que as nanopartículas são pequeníssimas esferas com a superfície cheia de furinhos, como se fossem bolas de golfe. Dentro desses furos, os cientistas conseguem colocar o medicamento quimioterápico que será utilizado no ataque à célula doente.
Essas nanoesferas também são revestidas com uma substância para a qual as células tumorais têm muitos receptores. No caso da pesquisa brasileira, são folatos. “É quase que um complexo de vitamina B. As células sadias têm receptores de folato, mas as células tumorais apresentam de 200 a 300 vezes mais receptores. Ela quer folato a qualquer custo. Dessa forma, a nanopartícula é preferencialmente atraída para a célula tumoral em vez de ir para as células sadias”, explica Resende.
O resultado desse processo é que as células saudáveis não são tão atacadas pelo medicamento como as tumorais, e o paciente experimenta menos efeitos colaterais do tratamento. Nos estudos realizados por Resende e sua equipe, o medicamento matou cerca de 80% de células do câncer, contra somente 15% a 20% de células normais. É uma proporção de quatro células doentes para uma saudável, uma diferença grande para a quimioterapia convencional.
Perspectiva. Para o pesquisador, a tendência para quando essa técnica estiver completamente desenvolvida é que se tenha uma terapia completamente personalizada para o paciente. “A pessoa receberá o diagnóstico de câncer e passará por uma coleta de amostra das células tumorais. O exame irá mostrar a qual tipo de medicação essas células reagem melhor e quais tipos de receptores elas têm em sua superfície. Assim, o paciente receberá um medicamento sob medida para sua doença”, explica o cientista.
Mas esse avanço, por enquanto, está longe de ser alcançado. A pesquisa realizada no LNLS ainda está na fase de testes in vitro. “Ainda não houve testes em animais nem em humanos. Agora, preciso de instituições e pesquisadores parceiros para a realização desses testes”, explica Resende.
Ele também precisará de uma verba maior para as próximas etapas de sua pesquisa. Por isso, prevê que essa tecnologia não será disponibilizada aos pacientes antes da próxima década. “Mas é um avanço significativo do ponto de vista da ciência e da saúde. Precisamos sempre dar o primeiro passo”, conclui.
Fitoterápico
Pesquisa. O primeiro medicamento usado pelo cientista Matheus Resende foi a curcumina, substância extraída da cúrcuma que tem conhecidas propriedades antitumorais.

CARCINOMA ORAL

Estudo vê marcadores de proteína da doença

No Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPem), outra pesquisa conseguiu identificar diferenças na saliva das pessoas com carcinoma oral de células escamosas (OSCC), um dos tipos mais comuns de câncer de boca, que leva 20% dos pacientes à morte em até cinco anos depois do diagnóstico.
O teste elaborado pelos pesquisadores levou à identificação de 38 proteínas presentes na saliva de pacientes com lesões ativas do câncer e cinco proteínas que só aparecem em pacientes que, apesar de terem o câncer, não têm as lesões.
“O estudo abre caminho para a definição de proteínas marcadoras de prognóstico que poderão auxiliar a decisão clínica dos oncologistas. Além disso, as proteínas selecionadas refletem alterações em mecanismos celulares que podem ajudar a elucidar o surgimento e a progressão desse tipo de câncer oral”, diz Adriana Paes Leme, coordenadora da pesquisa. (RS)
Tratamentos
O desafio do alto custo. Um dos principais desafios no financiamento da assistência oncológica na rede pública é o preço cobrado pelas drogas mais inovadoras. As novas tecnologias e medicamentos tornaram-se mais efetivos contra os tumores, mas o processo de descoberta dessas terapias encarece o produto final. “Conseguimos olhar o alvo e quase que desenhar uma molécula capaz de destruir a célula tumoral. Só que essas drogas chegam caras ao mercado”, explica Riad Younes, diretor do centro de oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Linfomas
Hodgkin e não Hodgkin. Um dos tipos de câncer que deverá crescer com o envelhecimento da população é o linfoma, tumor que atinge o sistema linfático, estrutura do corpo que tem como uma de suas principais funções a produção de células de defesa. A doença se divide em dois grupos: Hodgkin e não Hodgkin. O primeiro atinge jovens entre 15 e 30 anos e tem maior chance de cura. O segundo é mais prevalente, correspondendo a cerca de 80% de todos os casos da doença, e está mais relacionado ao avanço da idade.
Fonte: O Tempo

Inteligência da mulher faz o marido feliz e saudável, diz estudo.


Inteligência da mulher faz o marido feliz e saudável, diz estudo.

A beleza pode ser “fundamental”, como dizia o poeta, mas é a inteligência da mulher que vai garantir a saúde mental do marido na velhice. Pelo menos é o que diz um estudo da Universidade de Aberdeen, na Escócia, divulgado nesta quarta-feira (3).
Segundo o professor Lawrence Whally, de Aberdeen, a mulher inteligente, que tem QI maior que o do marido, vai fazê-lo mais feliz a longo prazo. O resultado da pesquisa não deixou dúvidas: homens casados com mulheres inteligentes não são somente mais felizes, como têm vidas mais longas e saudáveis, podendo evitar o Mal de Alzheimer e outras doenças mentais associadas à velhice.
Outras pesquisas científicas já haviam demonstrando os efeitos benéficos das palavras cruzadas, da leitura e das visitas aos museus contra a demência geriátrica. Mas, segundo o professor Whally, “nunca dizemos aos meninos, que querem ter uma vida longa, que eles devem se casar com as meninas mais inteligentes. Uma pena! Pois a inteligência da companheira é a melhor garantia contra a degeneração mental do marido”.
Fatores de risco podem aparecer na infância
O pesquisador considera ainda outros fatores que propiciam o aparecimento da demência na velhice, como a perda de um parente próximo nos primeiros anos de vida. “Os estudos demonstram que a morte da mãe antes da idade de cinco anos é um fator de risco importante. Em contrapartida, o amor e o apoio parental durante a infância, passar muitos anos na escola, crescendo num ambiente favorável, são as melhores maneiras de garantir uma saúde mental eterna”. O estudo da Universidade de Aberdeen não abordou, porém, o risco à saúde mental das mulheres inteligentes quando casadas com uma “toupeira”, que passa o fim de semana deitado no sofá assistindo ao futebol na televisão. 
Fonte:RFI

18/08/2016

Pesquisadores brasileiros desenvolvem nanopartículas que podem inativar vírus HIV


Diego Freire  |  Agência FAPESP – Para se reproduzir no organismo, um vírus passa por um processo de adsorção (ligação) das suas partículas às células infectadas, conectando-se a receptores da membrana celular. Com o objetivo de impedir essa ligação e, consequentemente, a infecção, pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) desenvolveram uma estratégia que utiliza nanopartículas carregadas de grupos químicos capazes de atrair os vírus, ligando-se a eles e ocupando as vias de adsorção que seriam utilizadas nos receptores celulares.
Dessa forma, o vírus, já com sua superfície ocupada pelos grupos químicos carregados pelas nanopartículas, fica incapacitado de realizar ligações com as células do organismo. A estratégia inovadora de inativação viral foi desenvolvida no âmbito da pesquisa "Funcionalização de nanopartículas: aumentando a interação biológica", realizada com o apoio da FAPESP e coordenada por Mateus Borba Cardoso.
Trata-se do primeiro estudo que demonstra inativação viral baseada em química de superfície de nanopartículas funcionalizadas.
“Esse mecanismo de inibição viral se dá por meio da modificação de nanopartículas em laboratório, atribuindo-se funções à sua superfície pela adição de grupos químicos capazes de atrair as partículas virais e se conectar a elas. Esse efeito estérico, relacionado ao fato de cada átomo dentro de uma molécula ocupar uma determinada quantidade de espaço na superfície, impede que o vírus chegue até o alvo, as células, e se ligue a ele, porque já está ‘ocupado’ pela nanopartícula”, explica Cardoso.
Os pesquisadores sintetizaram nanopartículas de sílica, componente químico de diversos minerais, com propriedades superficiais distintas e avaliaram sua biocompatibilidade com dois tipos de vírus. A eficácia antiviral foi avaliada em testes in vitro, com os vírus HIV e VSV-G – que causa estomatite vesicular – infectando células do tipo HEK 293, uma cultura celular originalmente composta de células de um rim pertencente a um embrião humano. As partículas virais foram preparadas para expressar uma proteína fluorescente que muda a coloração das células infectadas, permitindo que os pesquisadores “sigam” a infecção.
A inovação segue a mesma estratégia já adotada pelos pesquisadores na funcionalização de nanopartículas que levam medicamentos quimioterápicos em altas concentrações até as células cancerígenas, evitando que as saudáveis sejam atingidas e minimizando os efeitos adversos da quimioterapia (leia mais em agencia.fapesp.br/23210).
As nanopartículas de sílica foram escolhidas mais uma vez por conta da sua porosidade, que permite uma boa funcionalização de sua superfície por meio da adição de grupos químicos em seus poros. Depois de sintetizadas, essas partículas passam por reações necessárias para que sua superfície seja funcionalizada de acordo com as afinidades químicas dos vírus. Grupos químicos específicos foram inseridos na superfície das partículas para que as proteínas virais sejam naturalmente atraídas por elas.
Após esse processo, os pesquisadores deram início à caracterização das nanopartículas, realizando medições de tamanho e checando se a funcionalização estava correta. Para isso, utilizam um arsenal de técnicas, desde microscopia a análises do potencial zeta – a carga superficial das partículas. De posse das informações sobre a carga foi possível correlacioná-la aos dados já conhecidos do envelope viral, a composição química do que está na superfície do vírus, aumentando as chances de as nanopartículas serem ancoradas em determinadas regiões dele.
Também foi utilizada a técnica de espalhamento de raios X a baixos ângulos (SAXS, na sigla em inglês). Por meio de radiação gerada pelo acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), integrante do CNPEM, os pesquisadores utilizam a técnica para enxergar e estudar a forma e a organização espacial de objetos em proporções nanométricas – no caso, as nanopartículas de sílica funcionalizadas.
“As nanopartículas devidamente funcionalizadas e as partículas virais passaram, então, por um tempo de incubação para que interagissem umas com as outras em função das propriedades de superfície de ambas. Quando existe muita atração, provocada pelos grupos químicos presentes na superfície das nanopartículas, a preferência do vírus é de se ligar a elas, não às células”, conta Cardoso.
Após a funcionalização das nanopartículas, os estudos sobre sua carga e outras propriedades e o período de incubação, os pesquisadores realizaram os testes in vitro infectando as células HEK 293 com os vírus HIV e VSV-G preparados para expressar a proteína fluorescente. Por meio de microscopia de fluorescência foi possível acompanhar a infecção e também as células que não foram atingidas por ela. Utilizando citometria de fluxo, tecnologia capaz de analisar simultaneamente diversos parâmetros de células ou partículas em suspensão, os pesquisadores puderam contar as células positivas e negativas frente à exposição ao vírus: as nanopartículas chegaram a reduzir a infecção viral em até 50%, demonstrando a eficiência da estratégia.
“Esse resultado poderia chegar a 100% se aumentássemos a quantidade de nanopartículas funcionalizadas no período de incubação, mas os testes são realizados em uma faixa otimizada de inativação viral, para que possam ser observados os efeitos nas células atingidas pelos vírus, realçando as diferenças para fins de comparação”, diz o pesquisador.
Leia mais em Agência FAPESP.
Ilustração: Mateus Borba Cardoso

15/08/2016

Pesquisa busca terapia alternativa contra a leucemia



Por Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)

Duas leveduras – incluindo a espécie Saccharomyces cerevisiae, presente nos fermentos biológicos usados na culinária – estão no foco de uma pesquisa que busca uma terapia alternativa para o tratamento das leucemias, câncer que afeta algumas das células do sangue. Em laboratório, os pesquisadores recorreram a técnicas de clonagem e biologia molecular para produzir a enzima asparaginase encontrada nas leveduras S. cerevisia e em outro tipo de levedura, chamado de Picchia pastoris. Os testes in vitro mostraram que a molécula atua contra as células cancerígenas e apresenta características desejáveis para o desenvolvimento de um potencial novo medicamento. Liderado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o trabalho tem colaboração de cientistas do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) e do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). Resultados do estudo foram publicados recentemente na revista científica Protein Expression and Purification.

Há mais de 30 anos, a enzima asparaginase, extraída de bactérias, é utilizada no combate ao câncer, principalmente nos casos de leucemias e linfomas. Por exemplo, para os pacientes com leucemia linfocítica aguda (LLA), mais frequente nas crianças, a molécula faz parte da primeira opção de quimioterapia, aumentando significativamente a chance de cura. “O tratamento com asparaginase é muito eficaz para o controle da doença. Porém, a enzima obtida a partir de bactérias provoca uma reação forte do sistema imunológico. Alguns pacientes apresentam reações adversas graves, como hemorragia e choque anafilático, que obrigam a interrupção dessa terapia”, diz o pesquisador Jonas Perales, chefe do Laboratório de Toxinologia do IOC/Fiocruz e um dos coordenadores do estudo.

Reduzir a dependência das importações do produto e o custo do tratamento também são objetivos do projeto. Em 2013, o laboratório norte-americano do qual o Brasil importava o medicamento a base de asparaginase parou de produzi-lo e houve desabastecimento no país. Desde então, o Ministério da Saúde assumiu a compra diretamente de outro fabricante internacional. Só no ano passado, foram gastos R$ 2 milhões no Sistema Único de Saúde (SUS) para aquisição do remédio. “O desenvolvimento de um biofármaco nacional pode baratear a terapia e aumentar a segurança sobre o abastecimento do mercado brasileiro”, ressalta a primeira autora do artigo, Luciana Girão, estudante de doutorado no Instituto de Química da UFRJ, com orientação do pesquisador do IOC/Fiocruz Jonas Perales e da professora da UFRJ Elba Bon, além de co-orientação da pesquisadora de Farmanguinhos Maria Antonieta Ferrara, todos coautores da publicação.

Busca pela similaridade

O sucesso da asparaginase é baseado na sua capacidade de degradar o aminoácido asparagina, que integra proteínas essenciais para a sobrevivência das células. “Diferentemente das células saudáveis, que podem produzir asparagina internamente, as células leucêmicas não conseguem sintetizar esse aminoácido, dependendo da captação das moléculas que circulam na corrente sanguínea. Quando a enzima degrada a asparagina no sangue, as células cancerígenas não podem produzir uma série de proteínas e morrem”, explica Perales.

Produzida em pequena quantidade no corpo humano, a asparaginase pode ser encontrada em diversos micro-organismos, como bactérias e fungos, assim como em plantas e animais. Segundo os pesquisadores, embora tenham estrutura básica parecida, as enzimas sintetizadas pelas diferentes espécies apresentam particularidades, que podem influenciar no seu desempenho como medicamento. Dessa forma, na comparação com a molécula extraída de bactérias, a asparaginase obtida a partir da levedura S. cerevisiae é mais similar à asparaginase humana, o que pode facilitar a sua aceitação pelo organismo. “Acreditamos que essa enzima deve estimular menos o sistema imune dos pacientes, reduzindo os efeitos colaterais. Ela poderia ser uma segunda opção para os indivíduos que desenvolvem hipersensibilidade à asparaginase de bactérias ou, até mesmo, uma primeira opção, caso os resultados ao longo da pesquisa mostrem um desempenho superior”, pondera Luciana.

Análise da molécula

Uma vez que a levedura S. cerevisiae sintetiza pouca asparaginase, a primeira fase do trabalho envolveu técnicas de engenharia genética para produção da enzima em maior quantidade. O gene que orienta a produção da asparaginase na S. cerevisiae foi clonado e inserido em leveduras da espécie P. pastoris, que podem ser induzidas a produzir grande quantidade de proteínas. Reconhecidamente seguras, essas leveduras já são empregadas na fabricação de outros medicamentos, o que facilita a sua utilização e a aprovação dos produtos pelos órgãos reguladores. No caso da asparaginase, os cientistas conseguiram obter sete vezes mais enzima utilizando essa técnica em comparação com a produção em S. cerevisiae diretamente.

A partir dessa metodologia, os pesquisadores avançaram para a etapa seguinte: avaliar as características da asparaginase recombinante de leveduras e sua ação contra células de leucemia. Conforme esperado, foi identificado que a enzima produzida pelas leveduras apresenta carboidratos na sua composição, ao contrário do que ocorre nas asparaginases extraídas de bactérias. Essa característica é um dos pontos a favor da nova molécula, na medida em que a torna mais parecida com as enzimas humanas. “A glicosilação [adição de carboidratos às proteínas] não acontece em bactérias, mas é uma característica no processo de produção de enzimas tanto em leveduras, como em seres humanos. Essa é uma grande vantagem”, diz Perales.

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12/08/2016

Encontrada no Brasil bactéria resistente a um dos mais poderosos antibióticos


Diego Freire | Agência FAPESP – Recentemente descoberto na China e também encontrado em países da Europa, da Ásia e da África, o gene mcr-1, que causa resistência a uma classe de antibióticos utilizados justamente para tratar infecções por bactérias multirresistentes, foi identificado pela primeira vez no Brasil em cepas da bactéria Escherichia coli isoladas de animais de produção.
Os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) responsáveis pela identificação da bactéria também reportaram o primeiro caso de infecção humana no Brasil, em um hospital de alta complexidade em Natal (RN), por uma cepa da bactéria portadora do gene e resistente a Colistina (polimixina E), um dos mais poderosos antibióticos, considerados como último recurso no tratamento de infecções produzidas por bactérias que não respondem a outras drogas.
“A aparição desse gene no Brasil pode contribuir para o surgimento de bactérias totalmente resistentes aos antibióticos, com risco de enfrentarmos uma situação similar ao que foi a era pré-antibiótica, quando doenças comuns, como uma infecção urinária ou um ferimento profundo na pele, levavam facilmente a óbito”, alerta Nilton Lincopan, responsável pela pesquisa Monitoramento de bactérias Gram-negativas multirresistentes de importância médica (humana e veterinária): impacto clínico/ambiental e desenvolvimento de alternativas terapêuticas e produtos de inovação tecnológica, realizada com apoio da FAPESP.
Os resultados da pesquisa foram publicados nas revistas científicas Eurosurveillance, do European Centre for Disease Prevention and Control, e Antimicrobial Agents and Chemotherapy, da American Society for Microbiology.
Superbactéria
Descoberta em 1949, a produção de Colistina foi descontinuada entre a década de 1970 e o ano 2000 por sua elevada toxicidade, ficando o antibiótico restrito ao uso veterinário. No início do século, entretanto, com a emergência de bactérias produtoras de enzimas responsáveis por provocar resistência a praticamente todos os antibióticos beta-lactâmicos, como as penicilinas, a Colistina voltou a ser utilizada como última alternativa terapêutica no tratamento de infecções produzidas por microrganismos multirresistentes, principalmente associadas a surtos de infecção hospitalar.
Por muito tempo, conta Lincopan, a comunidade científica internacional acreditou que o desenvolvimento da resistência bacteriana a Colistina seria um processo difícil. “Porém, ao final do ano passado, um artigo alarmante foi publicado na revista Lancet Infectious Diseases, em que pesquisadores chineses descreveram a identificação de um novo gene (o mcr-1) que confere resistência contra polimixina E e polimixina B.”
Ainda mais preocupante, de acordo com o pesquisador, foi a descoberta de que o gene é facilmente transferível de uma espécie bacteriana a outra por meio de plasmídeos, fragmentos de DNA extracromossômicos que podem se replicar autonomamente e que podem ser transferidos entre diferentes espécies bacterianas por conjugação – processo de reprodução das bactérias por meio do qual pedaços de DNA passam diretamente de uma para a outra. O fragmento de DNA transferido se recombina com o material genético da bactéria receptora, produzindo novas combinações genéticas que serão transmitidas às células-filhas na próxima divisão celular.
Cepas bacterianas carregando o gene mcr-1 foram encontradas tanto em animais de produção como em seres humanos, levantando suspeitas sobre a existência de uma cadeia na disseminação da resistência a Colistina que começa a partir do uso do antibiótico na alimentação animal, propagando-se para os animais abatidos, os alimentos derivados e o ambiente.
Diante da ameaça de que muitas infecções poderiam se tornar intratáveis, um alerta mundial foi emitido no início do ano pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Segundo Lincopan, papers de pesquisadores de diferentes países reportaram em seguida a identificação do gene mcr-1 em cepas de bactérias clinicamente importantes, como Escherichia coliSalmonella spp. e Klebsiella pneumoniae.
“O aspecto mais assustador sobre o gene é a facilidade com que ele é transferido entre diferentes espécies bacterianas. Consequentemente, algumas bactérias hospitalares têm alinhado este gene junto a outros de resistência a antibióticos, favorecendo que a espécie bacteriana receptora fique resistente a praticamente a totalidade dos medicamentos. Assim, se um paciente estiver gravemente infectado, por exemplo, por uma E. coli, não haverá nada que se possa fazer”, diz o pesquisador.

Leia mais em Agência FAPESP.